Sobre nós

                                                          Coleção de Arte Bahianeira

           Arte plástica é o primeiro subsídio da cultura. Nos tempos idos, quando ainda morávamos em cavernas, exteriorizamos nosso cotidiano desenhando e pintando as paredes rochosas das nossas mais primitivas moradias. Ainda não sabíamos escrever, porém já rabiscávamos as cenas representativas do nosso dia a dia.

         As primeiras formas de escrita contemplavam as palavras com desenhos de pássaros, peixes, árvores, astros, linhas sinuosas ou angulares. Representavam subjetivamente o que queríamos expressar fossem números ou atos, relacionamentos, conquistas, a guerra ou os feitos de modo geral.

         No decorrer da história com a evolução do homem, a escrita evoluiu, as representações do cotidiano viraram símbolos e depois letras e números.

         Claro que a evolução da humanidade exigiu os aperfeiçoamentos todos com os quais nos acostumamos. Passamos a ser mais exigentes com a qualidade da moradia, com o vestuário, com a locomoção e com o conforto.

         As garatujas das cavernas também evoluíram. Foi preciso aperfeiçoar a representação do meio onde vivíamos. E também quem éramos. O ser humano passou a representar nas pinturas e esculturas, primeiro a si próprio, depois passou a reproduzir o resto: suas moradias, a família por mais primitiva e ancestral que fosse, uma paisagem para lembrar o meio ambiente onde vivia, uma lembrança, o local de trabalho, os animais.

         Não compete dar aqui uma aula de história da arte. Ela está muito bem estudada nos compêndios específicos, uns curiosos e práticos, outros minuciosamente detalhados. É só adquirir um exemplar bem genérico e entender como quase tudo aconteceu.

         No nosso caso, à guisa de introdução, apenas citamos o que acontece com o colecionador ao decidir colecionar. É como se fosse um resumo pessoal, individual, do que ocorreu com a humanidade como um todo.

         A começar pelos ancestrais.

         Posso dizer que meu avô paterno, Apulchro Leony, filho de Firmino Luiz e Adélia, comerciante próspero e bem relacionado, foi quem na família, primeiro mandou pintar afrescos nas paredes do casarão de Nazaré das Farinhas e pendurou quadros pela casa da Bela Vista do Cabral.

         Foi também um mecenas: ajudou José Tertuliano Guimarães, no começo dos anos de 1920, a fazer um curso de arte na Academia Julien em Paris. O pintor foi eternamente grato a ele e certamente o fez despertar para o mundo das artes plásticas.

         Alguns filhos dele também admiraram as artes plásticas. Em especial Joel, meu pai.

         Conterrâneo de Nazaré das Farinhas, Bahia, do inesquecível Jayme Hora, freqüentou sua casa e adquiriu, creio até que a título de ajuda, companheirismo e cooperação, vários trabalhos desde os belíssimos “carvões” até os incomparáveis óleos, todos de grandes dimensões.

         Meu pai sofreu, no bom sentido, a influência de um médico inteligentíssimo que clinicou em Salvador embora nascido nas Alagoas, Jessé Santiago Accioly Lins, Dr. Jessé Accioly, quanto ao que adquirir. Nesta época, o valor pecuniário dos objetos de arte não tinha chegado à Bahia. Comprava-se barato, baratíssimo os trabalhos. Pagava-se o que o artista pedia e o que se queria. Não havia mercado de arte. Os poucos que se aventuraram nesta seara, montando galerias, sempre se deram mal. As galerias de um modo geral não sobreviveram, tiveram vida efêmera, salvo uma ou duas exceções. Em virtude desta pouca valoração, para sobreviver, os artistas precisavam produzir muito, inundando o mercado nada competitivo de telas e desenhos. Resultado: para o artista ter um retorno apenas razoável do seu trabalho, era preciso sair da Bahia, vislumbrar outras praças. Quase nenhum conseguiu, tendo que continuar na Bahia pintando em quantidade e com mercado resumido a meia dúzia de apaixonados por arte.

         Dr.Jessé, homem de conversa intensa, versátil, muito estudioso e culto, possuidor de uma invejável memória, tinha um gosto sutil pela arte, um olhar penetrante e afiado. Tivesse meu pai se guiado pelo colega e hoje a Coleção Bahianeira seria espetacular e muito mais vasta.

         O problema que meu pai tinha um gosto pessoal e uma estranha característica para aquisição: só comprava os trabalhos se ele gostasse do artista pessoalmente! Que critério! Arte x Amizade! Arte x Simpatia! Se o artista fosse seu amigo, seu camarada, ele comprava e comprava como uma ajuda, um auxílio, até para elevar o ego do pintor. Se ele não gostasse ou não tivesse simpatia, se ao ser apresentado o sujeito o olhasse de soslaio, ah! nunca um trabalho desse “sujeito” estaria entre seus quadros. Era tão viva nele esta faceta, que numa ocasião ganhou de um cliente uma tela de um artista que ele não suportava. Pelo seu critério de julgamento, achava o camarada pedante, freqüentador de coluna social, enfim. Nunca vi o tal quadro até sua morte. O trabalho estava guardado, literalmente, no fundo de seu guarda-roupa e com a tela virada para trás!

         Hoje está honrosa e galhardamente na minha parede.

         Meu pai dava assim o testemunho mais característico de sua personalidade: era um passional.

         Porém, para o bem do que acabou se seguindo, ser passional foi uma coisa boa. Nos dias de sábado à tarde, saíamos os três, meu pai, Dr. Jessé e eu, para visitar os ateliês dos artistas. Às vezes também íamos a antiquários garimpar móveis, pratas, quadros e Dr.Jessé, marfins, pelo que era apaixonado.

         Destas visitas pessoais, destas idas às casas dos artistas, pois naquela época, o ateliê era em casa mesmo, nasceu o meu gosto pessoal pelas pinturas, esculturas, talhas, encáusticas, gravuras, litografias, expressões várias da cultura intrínseca na vida de um povo.

         Não importa a mim se é naif, abstrato, fundido, primitivo, gravado, esculpido, talhado, colado, impresso. Admiro a capacidade destes seres, que são via de regra, mais do que simples pessoas, são assinalados por Deus para criar a mais sublime das expressões humanas: as artes plásticas. Não que eu não valorize a literatura em prosa ou verso, não idolatre a arte da medicina ou não admire a música! Mas é que a imagem vale muito mais que mil palavras. E a imagem trabalhada, reproduzida, seja no formão, no pincel, na talhadeira, no cinzel, com os dedos ou com a grafite, traz a pura expressão da vida humana.

         Seja da antiguidade onde despontaram os gênios sobejamente conhecidos de todos, na idade média, no período renascentista ou na contemporaneidade, eu os admiro e aprecio, sou capaz de passar horas com um livro de imagens nas mãos, longos minutos em frente a um trabalho num museu, embora não tenha muita paciência com o escrito pelos “experts” mais detalhistas, críticos ou historiadores.

         O sentimento do amor pela arte pode ser expresso fazendo-se trabalho em arte, conhecendo arte academicamente ou colecionando os trabalhos que outros fizeram.

         É preciso escolher o que colecionar de acordo com a capacidade de adquirir as obras. Não adquirir no sentido de comprar, mas no de conseguir. O critério da coleção definirá o sentido, o norte, a meta a ser perseguida, porque uma coleção nunca se completará, jamais será totalmente alcançada, não importa o tamanho do patrimônio que se disponha a investir, às vezes o trabalho de um artista é simplesmente inalcançável às vezes até por que já não exista. É o caso de José Guimarães que teve uma parte substancial do acervo perdido devido á ignorância de quem o possuía: foi queimado para erradicar os cupins que estavam nos chassis e nas molduras!!!.

         Colecionar, juntar, aglomerar obras de arte, não é como preencher um álbum de figurinhas pré-determinado, onde cada uma tem seu lugar próprio, estabelecido pelo editor. As obras de arte ocuparão a vida do colecionador, não apenas as paredes da casa e do escritório ou da sua fundação ou do seu museu particular. Às vezes o colecionador encontra uma obra que estava procurando. Faz parte da coleção. Mas o dono não dispõe da obra para desfazer-se. Ela então passa a fazer parte da coleção na mente, na memória do colecionador. Eu mesmo “possuo” pelo menos três trabalhos nesta categoria. Não me pertencem, mas fazem parte da coleção, existindo em outro sítio, estando em outras mãos. Poderia até solicitar aos donos serem fotografadas para compor o presente trabalho, mas não imagino como serão as reações. Na dúvida....

         Assim, depois deste preâmbulo, posso dar continuidade a estória desta coleção de arte bahianeira.

         O primeiro critério que defini foi o de que eu jamais teria como colecionar arte a nível mundial. Os mercados fora do País são muito extensos, disputados e aquecidos em virtude da maior profundidade cultural de europeus, asiáticos e norte-americanos. Há artistas de milhares e milhões de dólares e euros. Os de qualidade ,impossível de serem adquiridos por um simples mortal. Além do que, suas histórias pessoais se passam em lugares para nós inatingíveis. Pequenas localidades no interior da Holanda, vilas e povoados na França e Espanha, aldeias na Alemanha, seus remotos lugares de origem. Como vou ter tempo para alcançar estes artistas enquanto pessoas? Por meio de livros, de artigos e de catálogos de exposições em museus e galerias? Coisa inatingível.

         Acho isto tudo muito sem critério e impessoal. Um renomado artista nascido na década de 1940 no interior da Inglaterra, por exemplo, será para mim um eterno desconhecido, resumido à sua assinatura no canto da tela. Nunca o terei visto pessoalmente. Talvez apenas vá conhecê-lo de uma fotografia com “foto-shop” na aba de um livro. Não. Eu preciso de algo mais pessoal, mais próximo.

         Então vamos aos nacionais. Paulistas, gaúchos, cariocas. Estes já têm seu mercado, seus colecionadores. Estão também distantes, inalcançáveis, celebridades em suas terras, em seus rincões.

         Por estas razões, voltei-me para a Bahia. Gosto de saber que conheci Mirabeau Sampaio meu vizinho na Rua Milton de Oliveira, pai de Arthur, gosto de lembrar as conversas, as trocas de idéias com Newton Silva na sala do fundo da Rua do Tingui 28 e que estive pessoalmente com Carlos Bastos, que dei risadas com Calazans Neto e apreciei, de longe, o ar triunfal de Jenner nas reuniões em casa de Jessé Acioly. Apraz-me recordar a figura franzina de Jayme Hora, sentado meio de banda no banco do atelier em frente ao cavalete, fumando um cigarro atrás do outro, recordar a visita à casa de Carybé em Brotas, um ateliê cheio de livros e objetos de adoração dele, a oficina de Mario Cravo, um universo inalcançável saído da cabeça “sonhante” do imaginário particular do artista mais revolucionário e paradoxal da Bahia, gosto de ter visitado o atelier organizado de Justinho Marinho, de ter falado ao celular com Álvaro Machado, enfim, coleciono o que sei de quem foi. Para mim é regozijo lembrar que privo do conhecimento e da amizade com Guel, artista prematuro e que evolui à medida que seus cabelos embranquecem como os meus, que posso brincar com o inquieto Bel Borba onde quer que o encontre, que conheci Jorge Costa Pinto e sua família, que estive em casa de Carlos Augusto Bandeira na Boca do Rio, que conversei longamente e por diversas vezes com Antonio Rebouças, que fui à oficina de Osmundo Teixeira no Goes Calmon em Itabuna e que posso chamar Manoel Jerônimo de Teco.

         Claro que gostaria de ter conhecido os outros “bahianos” que coleciono e admiro: Floriano Teixeira e as janelinhas, Diógenes Rebouças e a detalhada pintura iconográfica de Salvador, Presciliano Silva e os soturnos interiores, Emigdio Magalhães e seus casarios, Oseas Santos e Manoel Ignacio de Mendonça Filho autores das mais belas marinhas, um do oceano aberto o outro das paradas águas de Mar Grande na Baía de Todos os Santos, Alberto Valença e João José Rescala professores de óleo, tela, paleta e pincel, José Pancetti com suas cores inimitáveis nas pinceladas infinitas.

         Chego então à conclusão que, como meu pai, sou um passional inveterado.

         Na década de 1970 freqüentava Minas Gerais em busca de cavalos Mangalarga Marchador e gado Nelore. Corria os quatro cantos do vasto Estado, mas sempre passava em Belo Horizonte. Nos domingos, primeiro na Praça da Liberdade e depois na Av. Afonso Pena, promoviam a “feira hippie”. Eu gostava mais quando era no primeiro endereço. Era menor, tinha mais artistas e artesãos e menos comerciantes e mercadores. Durante variados domingos passei a perceber a arte dos mineiros com a madeira, a pedra sabão e o barro. Minas é verdadeiramente a terra de Aleijadinho. A arte dele está lá até os dias atuais,como se fosse um DNA geográfico, incrustrado nas pessoas desde a Ponte Nova de Expedito até Prados e o Caraça dos Irmãos Julião, de Cachoeira do Brumado de Artur Pereira e Adão de Lourdes a Bichinho de Toti e Naninho.

         A primeira peça que comprei de Minas Gerais foi uma Nossa Senhora da Pena do Mestre Expedito, em cedro, barroca e perfeita. Depois uma Santana Mestra de Zé Maria.

         Em fins de 1980 conheci uma comerciante mineira com uma loja de produtos artesanais em Porto Seguro. Chamava-se Arte Brasil uma loja linda, atraente, pequena, mas cheia de charme. A proprietária, Joyce, ela mesma mineira, trazia esculturas de Minas para vender aos turistas em Porto Seguro. Eram esculturas em madeira representando animais, uns grandes outros menores. Com um detalhe que a outros passava despercebido: as peças eram assinadas. Leões, capivaras, onças, tatus, macacos e uma coleção de santos populares, Antonio, Francisco, Conceição, José, também assinadas: João Nery, Álvaro Jorge, Claudio Gerais, Humberto, GTO, Higino Araujo, Maurino. Todos os nomes completamente desconhecidos para mim. Porém o que eu percebia na minha sensibilidade, com a acuidade de meu olhar, era que as peças não eram simplesmente artesanato: eram arte pura, emanavam o poder da criação, a pureza no manejo do formão e do cepo, o trato da madeira, as cores que encarnavam os santos.

         Algum tempo depois, pelos idos de 1993, numa das minhas idas a Belo Horizonte, fui pesquisar no Centro de Artesanato Mineiro, no Palácio das Artes, bem no meio da Avenida Afonso Pena. Encontrei mais uma porção de referências aos artistas escultores mineiros. Descobri José Pereira e seu filho Artur, Itamar Julião e os barros de Elisa Pena. Mas como adquirir se o Centro de Artesanato não podia vender? Se era um centro de referência e história?

         Conversando com um e outro cheguei a quem poderia vender. Uma galeria de arte brasileira na Savassi chamada Serjô.

         Foi aí que as portas se abriram. Mas era preciso chegar à fonte, conhecer os artistas, alcançar o âmago da madeira, ir para o interior. Tudo isto só pode ser feito a partir de 1997 quando minha mulher Eugênia, companheira e cúmplice, junto com a minha prima Evelina, abriu uma loja de mobiliário artesanal brasileiro. Passamos a viajar de carro para o interior de Minas para garimpar artigos para a loja.

         Mas a Manufatura, loja que nasceu em Salvador em 1997, não poderia ficar apenas em Minas. Tinha que ser abastecida em São Paulo. Lá, fomos muito ao Embu que agora se chama “das artes”. Entravamos nos antiquários que não me convenciam, passávamos pelas ruas olhando as pessoas, as coisas. Uma loja no entanto sempre me atraiu muito. Era um amontoado de móveis de todo tipo, para atender ao gosto do freguês.Havia nas paredes de pé-direito alto umas lonas de caminhão pintadas com porcos, vacas, cavalos, eram lonas velhas, bem gastas, com ilhoses onde passavam cordas para que a lona pudesse se sustentar numa tosca moldura de madeira roliça. Eu admirava aquela arte. O autor era realmente um artista. Chamava-se Toti e........era de Minas!!! Também lá eu via esculturas barrocas, muito boas, mas um barroco um pouco diferente, menos detalhado que o de Expedito. Eram as peças de Zé Maria comercializadas ali pela irmã dele.

         Pelo que sei da história desta loja, dela nasceram dois grandes braços de arte e mobiliário mineiro: o Armazém do Arquiteto, hoje em Tiradentes e São João d’El Rey e a Oficina de Agosto em Bichinho, uma comunidade que já foi pequena e hoje está crescida, entre Tiradentes e Prados. 

         O Embu das Artes, como a “feira hippie” de BH, perdeu seu rumo. O comércio e o mercantilismo tomaram conta de tudo, as peças são reproduzidas em quantidade, há coisas feitas em resina, moldadas e vendidas aos montes. A arte foi embora, voltou para o interior do interior do Brasil, voltou para Minas, retornou às origens.

         Numa certa ocasião, ainda às voltas com a Manufatura, houve um evento do Sebrae em Salvador, no Centro de Convenções do Bahia Othon Palace Hotel. Tive nesta ocasião uma grata surpresa. Havia obras de arte do Brasil todo mas o que mais me chamou a atenção foram as esculturas em madeira de mestres do Piauí e as de pedra de Pernambuco. Cheguei tarde, no entanto. Mesmo assim consegui adquirir alguma coisa do Piauí e nada de Pernambuco. Os trabalhos de Nicola já haviam sido comercializados. Só muito tempo depois, quando fui tirar um visto americano em Recife, consegui incorporar o pernambucano ao acervo, destoante pelo fato de não ser mineiro nem bahiano, mas importante por ser brasileiro.

                                                                                                                            Ticiano Leony

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Colecionar arte. Mas a arte é deveras vasta. Tão vasta quanto vasto é o mundo......e a coleção torna-se infinita. Colecionar por tema: retratos, interiores, naturezas-mortas, marinhas, casarios, alamedas, bosques, lagos, abstratos. Ou por época: acadêmicos, impressionistas, modernos, contemporâneos, renascentistas. Ou por continente: europeus, americanos, asiáticos. Até por artista tem quem colecione, uma coisa quase sem graça, sem idéia. Apareceu um quadro de tal artista, assinado ou atribuído, o colecionador vai lá e compra, seja uma boa obra de uma fase de grande inspiração, seja uma que só vale pela assinatura. Mas o importante é colecionar, apreciar, olhar e se deixar levar pelo que o artista quis expressar, deixar-se tocar pela obra, pintura, escultura, instalação. Optei então em colecionar artistas bahianos, sendo para isto considerados não apenas os nascidos na Bahia, mas os que estiveram, ainda que de passagem, pela Bahia. Mesmo porque grandes expoentes das artes plásticas são de fora do local onde foram descobertos, valorizados ou não, mas reconhecidos. Desde sempre foi assim. A Bahia então, onde há precedente para tudo, não poderia faltar à regra. Floriano Teixeira é do Maranhão, Jenner Augusto de Sergipe, Carybé da Argentina, Cañizares é espanhol, Pancetti é italiano e por aí vai, a lista é vasta. Mas fizeram-se na Bahia, sobressaíram-se na Bahia. Escrevo "é" em vez de "era" porque artista é um ser imortal, permanece vivo na sua obra, na sua arte. Então porque "bahianeira" se a coleção é de artistas bahianos? A família de minha mãe é de Pedra Azul, norte de Minas. E foi em Minas Gerais que descobri a terceira dimensão. Claro, bahianos fazem escultura, Mário Cravo está aí para não me deixar mentir, assim como Eliana Kertz, Goca Moreno, o Louco, Tati Moreno, Guarany, Bel Borba, Agnaldo dos Santos. Mas o escultor mineiro faz escultura, corta a madeira, faz a talha, dá vida ao tronco da árvore de uma maneira diferente. Seja Itamar Julião, Artur Pereira, Adão de Lurdes, Alvaro Jorge, Claudio Gerais, Higino ou Expedito a escola escultórica mineira encabeçada por Francisco Lisboa, o Aleijadinho, fez o meu norte. Claro que na coleção há escultores bahianos, mas os mineiros são maioria. Assim surgiu a coleção, incompleta como deve ser toda coleção que não seja de figurinhas, por que o dinamismo da criação não permite que qualquer coleção tenha um fim, completa e imutável. Ao lado dos mineiros há pernambucanos, cearenses, piauienses, paulistas e cariocas.Assim é que bahianeira é bahiana e brasileira.