Histórias

Os esboços do Mestre Newton Silva

Newton Silva foi muito amigo de Joel Leony. Foram apresentados por Jessé Accioly quando Newton Silva ainda morava com a familia num minúsculo apartamento de uma transversal da Av. Joana Angélica, entre o Campo da Pólvora e a entrada do Tororó. Sempre foi um taciturno, de poucas palavras e gestos suaves. Eu diria que Joel Leony se apaixonou pelo trabalho de Newton. Resolveu ajudar àquele homem tão trabalhador, cabisbaixo, professor da Faculdade de Arquitetura e da Escola de Belas Artes. Adquiria seus quadros, levava amigos para comprar, indicava, elogiava, presenteava. Mas Newton Silva precisava de um lugar para trabalhar. Num quarto do pequeno apartamento era que não dava, não podia ser. Isaura Andrade, sogra de Joel, viera a falecer algum tempo depois. Ela morava na Rua do Tingui, 28, ao lado do Fórum Ruy Barbosa. Joel então fez um acordo com os outros herdeiros, seus cunhados e cunhadas e vendeu a casa a Newton Silva. Em 1979 eu, Ticiano Leony, já formado em engenharia civil, vez por outra ía visitar o Mestre na casa que outrora fôra de minha avó. Ficava admirando o trabalho do artista, o trato que ele dava aos pincéis, o manuseio do óleo de linhaça, as técnicas de preparo da tela, o desenho à grafite antes da tinta embrenhar-se no tecido esticado e pregado no chassis de madeira com pequeninos pregos de cobre. Ele pouco conversava, devia imaginar que eu já sabia tudo. Usava calças bem folgadas, camisa branca com as mangas arregaçadas, os óculos frouxos presos por um elástico atrás da cabeça...A luz da sala onde ele pintava era pouca. Acho que devido ao fato de retratar interiores de igrejas, acostumara-se à penumbra. Mas seus quadros não são escuros como os do seu Mestre Presciliano Silva!!! Não, as pinturas de Newton são claras, de cores vivas, como se os interiores tivessem sido renovados, restaurados com tinta fresca, o chão sem desgaste, os afrescos recentes. Suas pinturas são  iluminadas. Numa destas visitas, observei sobre uma prancheta de arquiteto abandonada no fundo da sala, um rolo de papel manteiga. Levantei-me curioso do banco alto do cavalete onde estava descansando enquanto Newton Silva misturava umas tintas, e fui mexer no rolo de papel. Era pesado, deveriam ser muitas folhas. A borrachinha de dinheiro que prendia o maço estava tão velha que derretera e ficara grudada na folha de fora. Desenrolei os papéis sobre uma mesa e tomei um susto com o que via. Eram os esboços dos trabalhos de Newton Silva. Não um ou dois ou vinte, mas dezenas, quiçá uma centena de folhas enroladas uma a uma, algumas já amareladas e puídas pelo passar do tempo. Comecei a escolher sob o olhar de censura do Mestre. " - Menino, no que é que você está mexendo aí ? Deixe isto pra lá..."  Segui olhando e admirando a precisão dos desenhos, os pontos de fuga ainda visíveis em alguns, a perspectiva perfeita do desenho, manchas de tinta velha em outros, rendados de traças em outros mais. Separei um e ele olhando. Segui enrolando os papéis, escolhi outro, depois mais outro e mais um no final. Perguntei a ele o que seria feito daquilo tudo. Ele simplesmente disse: " - lixo...!". Perguntei por quanto ele me venderia as quatro folhas que eu tinha separado. Ele disse que eram minhas se eu as desejasse, mas que não custava nada. Contou-me, quase sussurando, que ao estudar com seu mestre Presciliano Silva, teve com ele uma amizade filial correspondente ao paternal respeito que Presciliano lhe dedicava. A confiança de Presciliano em Newton era tamanha que, ao ficar com a vista curta devido à idade, era Newton quem traçava os esboços para Presciliano. E ali, naquela sala da Rua do Tingui, ao ver seus próprios esboços desejados por alguém, ele se lembrara que fora ele, muitos anos antes, que ficara com os esboços de Presciliano, no entanto perdidos, pois nenhum valor se dava a eles. Perguntei ao Mestre Newton Silva, com toda calma e delicadeza do mundo, se ele assinaria aqueles quatro esboços para mim. Ele assinou e datou e eu os tenho emoldurados e protegidos por vidro ante-reflexo até hoje na Coleção de Arte Bahianeira.

 

A Cabeça do Bebedor de Cidra

Houve uma época em que eu andava por São Paulo muito mais do que atualmente. Parecia ser mais perto, era menos engarrafado, mais simples, mais barato do que hoje, enfim, dava prazer ir a São Paulo. Frequentava as galerias de arte e os museus. Ía aos sábados à feira da Praça Benedito Calixto olhar as coisas usadas, remanescentes de faqueiros e jogos de jantar, chá e café, móveis, tapetes, luminárias, cadeados. Até hoje vende-se de tudo na feira da Praça Benedito Calixto. De vez em quando se achava alguma coisa interessante. Aos domingos ía à feira do Museu Brasileiro da Escultura na Avenida Cidade Jardim. Comprava livros de arte em mão de Antonio Bei, encomendava algum livro interessante, dava uma chegada no stand da Livraria São Paulo e conversava com Jenner Accioly. Lá as coisas em vez de usadas eram antigas, tinham mais classe, mais origem, já se via contraste nas pratas, santos de madeira e imagens de marfim de Goa, Indo-portugueses. Também ía passear na feirinha do MASP. Circulava pelas bancas repletas de arte e antiguidade. Havia muita conversa, muita gente examinando as peças. E também haviam os menos idôneos: se o comprador desse sopa, acabava comprando gato por lebre. Durante a semana, além dos museus, galerias e antiquários havia a parte mais interessante: os brechós. Situavam-se nesta época desde a Rua Cardeal Arcoverda até o Largo de Pinheiros. Eram muitos, alguns limpinhos e organizados, os móveis arrumados em fila faomando um corredor estreito para entrar, dava a volta no fundo da loja e saía pelo outro lado. Outros eram uma barafunda de coisas amontoadas e empoeiradas, cobertas de fuligem dos motores diesel dos ônibus que desciam a rua em velocidade.

Havia de um tudo: filtros ingleses, jarras e bacias de louça inglesa, garrafas licoreiras, alfaias de Igrejas de origem duvidosa, escarradeiras decoradas e ornadas com pão de ouro, camas, criados-mudos, candelabros de bronze, lustres e quadros, muitos quadros. Eram gravuras, óleos, aquarelas com vidro mofado, todos pendurados nas paredes formando um quebra-cabeças de mil cores e formatos. Dava até agonia olhar, embaralhava a vista. Numa destas visitas entrei num desses brechós com a minha amiga Lúcia Neves. Ela sempre recalcitrava, achava impossível que se encontrasse num lugar daqueles alguma coisa que prestasse. Mas Lucia sempre fazia minhas vontades, boa amiga que é desde longo tempo. Fui entrando na loja, felizmente uma das limpinhas no Largo de Pinheiros. Fui olhando, cautalosamente, os móveis, as louças e os quadros. Fui entrando e olhando, com calma, muita calma. O dono lá do fundo da loja nos olhando, meio desconfiado. De repente vi um traço conhecido. Parei, olhei com o canto dos olhos, reconheci a assinatura mas não consegui ver a data. O vidro mofado impedia a visão completa da obra. Segui adiante, dei bom dia ao dono, segui pela parte de trás do corredor de móveis, peguei a ala que dava para saída. Parei do outro lado e olhei de novo para o quadro. Era o que eu imaginava. Terminei meu passeio e andei de novo pelo corredor de entrada. Chamei o moço e comecei a peguntar os preços de vários tarbalhos. Aquele é tanto, o outro tal valor, e assim fui até chegar ao que eu queria. O preço era uma bagatela. Continuei perguntando pelos valores de outros. Por fim escolhi o tal e comecei a negociar. É tanto, dou tanto, nesta época de inflação galopante nem se falava em prazo. Por fim fechei o negócio. Na hora de pagar, quem disse que o homem aceitou cheque do Banco Econômico? e de Salvador? Nem pensar. Lúcia deu um cheque dela no valor e eu disse ao sujeito que iria sacar o valor numa agência e voltaria para trocar o cheque. Assim foi feito. O cheque de Lúcia, trocado por dinheiro vivo, está colado atrás da moldura nova com vidro ante-reflexo que mandei fazer na MM molduras em São Paulo. O quadro é "A Cabeça do Bebedor de Cidra" de Presciliano Silva, de 1913! Deste dia em diante, Lúcia passou a frequentar brechós!!!!